Vãs veleidades minhas
insanas
insones
incôngruas dúvidas
dormentes, tênues
perene embaraço
dos anos revolutos
a esmo
sem berço
cíclica gravidez de eus
múltiplos, confusos
dementes
sedentos
de vida lépida
pífio-devaneio-desabafo de uma subdesenvolvida na europa
Paralelos
paradoxos
multipla-escolha
85, 3% de liberdade em essência
Minha calma aparente
inventada
é toda por mim
criada
minha calma aparente
transborda de calma- aparente- inventada
elo do rude- barulhento
surreal-inusitado
deixa que venham
que pousem
marés de tormenta
por mim também criadas
minha calma inventada
me dá asas
encouraja tua loucura já cansada
adolescente
minha calma-aparente- inventada
quer ver o novo
que a tua loucura ignora
minha calma-aparente- inventada
parece instalada
leva-me
vacina-me
mas não me afasta da tua terna essência de calma roubada
Impressão de ter existido demais por hoje. Vontade de desligar o botão, dar pause. Semana passada uma pessoa querida suicidou, e eu me arrependi de quando ela me procurava, nunca ter tempo. Tempo que não dá pra voltar. De pensar que estaria sempre alí, fui adiando. Escrever, ligar, sempre pro outro dia. Não pedi as poesias que planejava publicar, traduzir para minha língua. Agora já era. Já era ele, já era publicar suas poesias. Nunca vou esquecer do verso que continha nos langues râpeuses, que um dia ele me mostrou em sua casa, no meio de tanta bagunça, fumaça, álcool. Da mesma ocasião em que critiquei o papel de parede de seu apartamento e ele me disse que não se incomodava, o contrário de mim que considerava aquelas florzinhas tellement fatigantes. Talvez quisesse ajuda; queria amigos, queria ser lido e que vissem suas gravuras. Eu não dei nada disso. Concentrei-me apenas em meu mundinho umbigo-de-merda. Foste parar no hospital e eu nem soube. Não te liguei nem te escrevi. Confesso que algumas vezes por semana desejava uma faca na minha barriga, talvez por isso considerava-me companhia imprópria. Eu errei Etienne. Agora me sinto um monstro de desatenção. Nem fui saber como correu teu estágio, nem te contei do meu. Nós que éramos os únicos a levar térmica com chá para a aula. Tú que me davas do teu pois a tua era bem maior. Tú que utilizavas alfabeto fonético para anotar tudo. Tú que me fazias pensar na dor que tenho em meus joelhos. Meus joelhos que me faziam pensar em tí cada vez que doíam, como aconteceu na quinta, quando já estavas morto e eu nem sabia. Tú que não tinhas namorada e tão poucos amigos em Toulouse, que moravas sozinho. Rien de nouveau au pays des abeilles. Achei que não fosse mais capaz de chorar. Nada. Nem lembro se cheguei a te falar do poema do brasileiro Leminski sobre o homem com uma dor, acho que sim. Tú e tuas pernas que doíam tanto. Tú que tomavas tantos medicamentos. Eu ía em breve te pedir teus poemas. Eu também acho difícil ir vivendo. Por isso me escondo, por isso renovo, por isso conquisto, por isso deprimo, por isso ignoro, por isso culpabilizo, por isso parto. Tá feio esse início de ano. Nem sei mais do quê sinto saudade, às vezes ela pinta, efêmera. Hoje não me mudo de tanto não querer ir a lugar algum. A realidade selon Hic Ille. A realidade, essa gangorra. Teu brinquedo preferido quando pequena, não era isso que dizias Luana? Toma, agora brinca.
Accouche une chanson, on m’a dit
Chanson multi-langue schizo
London- me alone there, no à Toulouse
Para eus.
Chanson non, poésie singée
Abstraitement concrète
Là où tout est tu, agonisant comme mes poumons
S’est fait écrire mon ode au printemps et son heure d’été
L’heure- du- vide commence
Sans permisso
L’envahissante heure- du- vide commence toujours à la même heure
Comment remplissons nous-t-elle si elle est déjà pleine
Mettons de la poésie abstraitement-concrète
Etouffée par les silences cycliques
Poésiemorte-heureduvide-silence
Silence-heureduvide-poésiemorte
Dans moi tout est silence sinistré
Poésie sinistré dans le je du silence
Qui circule et comble
Les heures mortes étouffées
Silence à deux, à un
Silence toujours silence
Dans mon je frénétique
Dans ma syntaxe dyslexique
Dans mes phrases atones
Dans mes mots surds-timides-fatigants
Incrustés de peur
La peur- du- vide arrive et est là
Me regarde et va toujours y être
Peur pleine de poids et de puissance
Peur permanente de ce qui est là
Dans le moi qui n’est pas transformé
Qui ne se contrôle pas
L’heure-du-vide brasse m’embrasse et me tiens compagnie
Elle s’endort l’hiver
Le soleil la réveille
Elle me rend poussière infime
Femme-peur-doute-flammeéteinte
L’heure-du-vide me rend plus seule à chaque vide.
(luana azzolin) avril 2010
Ele, da sacada, dizia que tinha um gato bebendo agua da piscina.
Ela, atrás do computador, escondia um soluço. Soluço provocado pela falta de indulgência aos atos outrora abortados. Condescendência zero ao não feito. O nada em julgamento.
Ele, instava na sede do gato, batia o pé, assobiava, como que pra chamar a atenção do mesmo, assassinando o silêncio.
Ela, já não escrevia nem escutava, só entendia o gato. Se ele queria aumentar o absurdo, ela também já tinha ensaiado.
Ela desliga o computador mas a moça do outro lado, quase que materializada a acompanha.
Ela, vai direto pra cama lembrar.
Estava quase conseguindo experimentar outra vez o odor longíguo daqueles cabelos, outrora longos, encaracolados, que havia impregnado delicadamente em seu antigo travesseiro. Ele, com sua habitual ausência de destreza, vê na porta um rochedo e a escancara. Entra no quarto já sonolento mas querendo um resto de conversa, invade o abstrato e o soterra. Roubo.
Naquela noite, como n’outras tantas, ficaram os três na cama, ele, ela e a menina que tem vontade de morrer um pouco, esperando o sono instalar-se deveras.
Luana Azzolin