quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Sincero perdão peço à palavra, do silêncio suspendido.

Sido como se depois de usá-la, depois do gozo, esquecia d’ela, d’outras, todos os dias.

Fora um lapso, um erro côncavo, desatenção à mater?

« é que andava deveras declinando… »

Enquanto abundavam sinapses secas, de sintaxe áfona. Orfãs.

Flor do latium áfona.

Sonhos disléxicos, mistura esdrúxula de pífios, monos, ocos, inodoros desvarios;

Da profe bonita, do menino que ama de graça e muito.

Palavra em greve no país da.

Diferente do tempo em que ninguém ousava embargar quando dispunha-me a quedar em minha «arte da propagação de irrealidades», filhas da pressa, lestas.

Luminosidade refletida pelo branco glacial…

Ansiedade refletida, desvirtuada pela luz.

- A refração da ânsia-

Nesse inverno do inaugurado 2009, Toulouse cheira à bergamota.

Deixo de declinar-te, volto a dissecar.

C’est promis.

Berdinazzi

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Ela dança engraçado e beija depois de contrato quase assinado.
Ela quer ser lembrada no dia seguinte e para isso telefona.
Telefona e diz que por hora não pode, que precisa trabalhar et cetera.
Depois, emails apaixonados.
Implora atenção.
Ela não gosta da minha corrente de plástico.
A Ela da barriga bonita, do abdomem definido.
Do desejo definido.
Da ausência de dúvida.
Da persuasão iminente.
Da falta de notícia minha, da falta de internet minha, do meu computador quebrado.
Ela não compreende.
Ela longe.
Ignorare.
Ela não entende meu português nem meu francês.
Ela quer ser convidada.
Quer invadir, dividir, sem demora.
Ela não gosta de ficar sozinha.
Ainda não aprendi a amar em inglês.
Ela do nome-pronome, da beleza e do meu medo.

Luana Azzolin

Quase Haikai

Versos poucos
Soltos, roucos
Rotos
Passo torto
Dia morto
Sem teu rosto.


Luana Azzolin

sexta-feira, 30 de maio de 2008

De quando tornei-me Italiana Ou De quando os italianos decidiram que meu sobrenome não seria mais Azzolin


Vacinei-me contra Sarko pela manhã e comprei um guarda-chuva pra comemorar, não exatamente nessa ordem. Posso dizer também que pra comemorar a compra do guarda-chuva é que me vacinei contra Sarko. Sinônimos, sinônimos do nada. Um dia Céline disse, escreveu ou deixou escorrer pelo lado esquerdo ou direito da boca, "o patriotismo é somente mais um daqueles falsos valores aos quais a humanidade se agarra". Patriotismo esse, equivocado e malsão da parte de Sarko, que me roubou noites de sono, diante da angústia do iminente, na língua deles, “emmerdement”, perfeito neologismo derivado é claro, de merda, que bem esboça a especialidade do Monsieur. Merda. Victor Hugo alegou (ou melhor deve ter escarrado) que merda é a palavra mais bonita da língua francesa. Dou-me ao luxo do uso do escatológico vocábulo pra melhor pintar o fato; Após ter engolido médicos e controladores de trem racistas e insinuações baratas de gente que ainda pensa que toda brasileira é puta, eis meu passaporte europeu em cima da mesa rindo pra mim.

Pequeno bloco de papel caro e emerdante que para havê-lo abri mão do meu estimado Azzolin, lembrança do único colo de vô que tive. Do Nascimento, nasço continuadamente, espero. Bloquinho de papel caro e menos chèr, hoje.

Luana ??? Berdinazzi...

domingo, 2 de março de 2008


Superlativo-me em segredo e visto hoje um sorriso parido. Não quero mais os enfadonhos e fustigantes beijinhos vazios de saudade aos quais fui condenada. Palavras escorrem ecoando poeira por um caminho menos fácil que o do nascimento de um sorriso. E, quando de súbito saem, são incipientes estilhaços desperdiçados. Platéia escassa. Assino minha negativa ao estilhaço vão. Continuo quieta. Mantenho o anseio de que minha renascença seja menos ilusória depois do entranhado mergulho insano em meio agonioso. Ontem, foi como se tivera tido todos os sonhos defenestrados.

domingo, 21 de outubro de 2007

Cheguei na cidade que moro há anos não sei precisar o dia da semana, dia em que ela me pareceu particularmente bela. Resolvi caminhar, deixei o carro na garagem, esqueci por algumas horas o que me afligia, e quando me dei por conta, estava numa rua repleta de turistas. Me senti um pouco turista também. Talvez por isso a considerei mais bela do que de costume. Não me lembrava da última vez que passei por aquelas ruas, me surpreendi com a quantidade de gente que passava por ali na mesma hora. Eram pessoas não sei de onde, não prestei atenção que língua falavam. Tiravam muitas fotos, meio sem pensar, com pressa, queriam registrar tudo. Comecei a chorar. Uma mocinha que tirava centenas de fotos, tirou uma de meu rosto. Que diabos ela iria pensar quando, dentre suas fotos tiradas na mais recente viagem, visse um homem chorando. Poderia ter sido o vento, quem sabe um cisco no olho dele. Acho que surpreendente seria se ela descobrisse que esse homem que chorava era um brasileiro, e que não havia cisco nem vento pra provocar choro. Um brasileiro, no Brasil, na cidade que ele melhor conhecia. Chorava por considerar que conhecia aquela cidade tão bem quanto a turista que havia chegado naquele mesmo dia. Ele era um turista ali, talvez mais do que todos que estavam a tirar fotos. Ele não sabia por que estava naquela cidade, por que foi morar naquela cidade e nem por que continuava ali. Me senti típico, ordinário, quantos brasileiros, ou melhor em todo mundo deve haver gente que se sente estrangeiro na cidade que elegeu pra ser a sua. Minhas lágrimas aumentaram. Eu era um turista na minha própria vida.

Luana Azzolin

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Sem sino parte II ou De novo a vaca

Era uma vaca sem sino, com um sapo na mochila e um poema de Manuel de Barros no bolso, aquele em que o menino ganhou olhar de pássaro. Na expectativa de que teria a Getúlio só pra ela. Não percorria há muito aquele caminho, queria sentí-lo a cada passo, reconhecer suas reentrâncias, trazer à tona suas memórias e quedar-se a sós com seus pensamentos. A pouco estava numa casa que, embora tenha vivido por dezessete anos, já não mais a reconhecia. Levara muito tempo pra achar até mesmo uma tomada no quarto que dormira por anos. Riu-se ao lembrar dos bilhetes que sua mãe deixava para a faxineira sobre a mesa de jantar: Limpa direito a cozinha, que tá dura de barata” e “Não esqueça de tirar as telhas de aranha”. Dessa vez não havia mais nada sobre a mesa, rir-se não era possível. Nela somente traços da solidão e do abandono requisitado, uma taça de vinho da noite anterior, uma xícara de café esquecida alí pela manhã. O pai da vaca morava agora sozinho, e ela explodindo de pena não via a hora de sair dali. Voltar o mais breve para o seu mundo, ou ao menos ficar sozinha no trajeto de volta à casa de sua mãe, assim poderia trazer em pensamentos o mundo da época que mais a agradava ou que ao menos não a feria. Mochila nas costas e um tanto pesada, levava alguns livros consigo também, preparada para encarar a Getúlio e poder pensar. Tudo por água. Ofereceram à vaca, carona.

Luana Azzolin