domingo, 30 de janeiro de 2011

Ele, da sacada, dizia que tinha um gato bebendo agua da piscina.

Ela, atrás do computador, escondia um soluço. Soluço provocado pela falta de indulgência aos atos outrora abortados. Condescendência zero ao não feito. O nada em julgamento.

Ele, instava na sede do gato, batia o pé, assobiava, como que pra chamar a atenção do mesmo, assassinando o silêncio.

Ela, já não escrevia nem escutava, só entendia o gato. Se ele queria aumentar o absurdo, ela também já tinha ensaiado.

Ela desliga o computador mas a moça do outro lado, quase que materializada a acompanha.

Ela, vai direto pra cama lembrar.

Estava quase conseguindo experimentar outra vez o odor longíguo daqueles cabelos, outrora longos, encaracolados, que havia impregnado delicadamente em seu antigo travesseiro. Ele, com sua habitual ausência de destreza, vê na porta um rochedo e a escancara. Entra no quarto já sonolento mas querendo um resto de conversa, invade o abstrato e o soterra. Roubo.

Naquela noite, como n’outras tantas, ficaram os três na cama, ele, ela e a menina que tem vontade de morrer um pouco, esperando o sono instalar-se deveras.

Luana Azzolin

segunda-feira, 30 de março de 2009

O sol da Recife que eu não conheço invadiu a Toulouse que venta;
Sol que cala o silêncio, alterna o compasso, antes mudo, por hora desritmado.
Fecho os olhos, vôo, sinto, olho de gato, mundo ovo, a Recife amarela…
Quis o tambor, o sorriso nato, ébria na Toulouse que venta…

Berdinazzi

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Deixa eu brincar de ser eu contigo?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Sincero perdão peço à palavra, do silêncio suspendido.

Sido como se depois de usá-la, depois do gozo, esquecia d’ela, d’outras, todos os dias.

Fora um lapso, um erro côncavo, desatenção à mater?

« é que andava deveras declinando… »

Enquanto abundavam sinapses secas, de sintaxe áfona. Orfãs.

Flor do latium áfona.

Sonhos disléxicos, mistura esdrúxula de pífios, monos, ocos, inodoros desvarios;

Da profe bonita, do menino que ama de graça e muito.

Palavra em greve no país da.

Diferente do tempo em que ninguém ousava embargar quando dispunha-me a quedar em minha «arte da propagação de irrealidades», filhas da pressa, lestas.

Luminosidade refletida pelo branco glacial…

Ansiedade refletida, desvirtuada pela luz.

- A refração da ânsia-

Nesse inverno do inaugurado 2009, Toulouse cheira à bergamota.

Deixo de declinar-te, volto a dissecar.

C’est promis.

Berdinazzi

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Ela dança engraçado e beija depois de contrato quase assinado.
Ela quer ser lembrada no dia seguinte e para isso telefona.
Telefona e diz que por hora não pode, que precisa trabalhar et cetera.
Depois, emails apaixonados.
Implora atenção.
Ela não gosta da minha corrente de plástico.
A Ela da barriga bonita, do abdomem definido.
Do desejo definido.
Da ausência de dúvida.
Da persuasão iminente.
Da falta de notícia minha, da falta de internet minha, do meu computador quebrado.
Ela não compreende.
Ela longe.
Ignorare.
Ela não entende meu português nem meu francês.
Ela quer ser convidada.
Quer invadir, dividir, sem demora.
Ela não gosta de ficar sozinha.
Ainda não aprendi a amar em inglês.
Ela do nome-pronome, da beleza e do meu medo.

Luana Azzolin

Quase Haikai

Versos poucos
Soltos, roucos
Rotos
Passo torto
Dia morto
Sem teu rosto.


Luana Azzolin

sexta-feira, 30 de maio de 2008

De quando tornei-me Italiana Ou De quando os italianos decidiram que meu sobrenome não seria mais Azzolin


Vacinei-me contra Sarko pela manhã e comprei um guarda-chuva pra comemorar, não exatamente nessa ordem. Posso dizer também que pra comemorar a compra do guarda-chuva é que me vacinei contra Sarko. Sinônimos, sinônimos do nada. Um dia Céline disse, escreveu ou deixou escorrer pelo lado esquerdo ou direito da boca, "o patriotismo é somente mais um daqueles falsos valores aos quais a humanidade se agarra". Patriotismo esse, equivocado e malsão da parte de Sarko, que me roubou noites de sono, diante da angústia do iminente, na língua deles, “emmerdement”, perfeito neologismo derivado é claro, de merda, que bem esboça a especialidade do Monsieur. Merda. Victor Hugo alegou (ou melhor deve ter escarrado) que merda é a palavra mais bonita da língua francesa. Dou-me ao luxo do uso do escatológico vocábulo pra melhor pintar o fato; Após ter engolido médicos e controladores de trem racistas e insinuações baratas de gente que ainda pensa que toda brasileira é puta, eis meu passaporte europeu em cima da mesa rindo pra mim.

Pequeno bloco de papel caro e emerdante que para havê-lo abri mão do meu estimado Azzolin, lembrança do único colo de vô que tive. Do Nascimento, nasço continuadamente, espero. Bloquinho de papel caro e menos chèr, hoje.

Luana ??? Berdinazzi...